domingo, 8 de agosto de 2010

Uma palmada não dói!

As vezes, nas relações, nos emprestamos de tal forma que acabamos nos perdendo no outro...
Mas haverá o tempo no qual nos re-encontraremos com nós mesmos, acrescidos das experiências
que só uma relação "com o outro" pode nos propiciar.






Era lindo como nenhum outro, pois era possuidor de uma confiança titânica: Nada poderia abalar!
Um dia, voltando da escola, encontrou a mãe ensimesmada lavando louça e preparando o almoço.
Queria contar das novidades aprendidas na aula e a urgência de partilhar o que havia aprendido
era tanta que foi largando no chão os materiais da escola, mochila, tênis...
Correu para a mãe buscando o conforto do abraço, mas ela o empurrou e ,esbravejando, gritava
que ele só sabia bagunçar o que ela havia arrumado e mais uma enchurrada de palavras "feias", as quais, se ele falasse, sabia que o castigo seria eterno.
Mais espanto sentiu ao vê-la se aproximar com o rosto transtornado e mãos ameaçadoras que feriam
seu corpinho onde quer que tocassem.
Correu para o quarto para fugir da surra, mas a mãe estava atrás impedindo que fechasse a porta.
A mãe era tão grande! Não tinha como se defender...

No dia seguinte, na escola, a professora indagou dos hematomas em seu rosto, braços, pernas, mas ele não
sabia o que responder. Sabia que deveria dizer a verdade, pois fora o que lhe ensinaram seus pais. Mas a verdade lhe custaria quanto? Quanta dor mais? Disse que havia caído da escada na casa do vizinho.

Na volta para casa não ia mais exultante; o pesar da dúvida de como seria recebido por sua mãe
angustiavam-no mais que qualquer outro bom pensamento que pudesse ter.
A mãe, lavando e cozinhando, não notou sua presença quando passou pela cozinha e foi direto ao quarto, dessa vez sem alardes, tendo o cuidado de não deixar nada espalhado pelo chão.
Minutos depois a mãe entrou no quarto furiosa e perguntando aos gritos porque ele não havia ido direto lhe contar o que havia aprendido na escola.
Para mãe ele podia dizer a verdade:
- Porque tive medo de que você me batesse de novo, mamãe.
- Medo de mim?! Você tem medo de mim? Vou lhe ensinar a não ter mais medo da sua mãe. Sua mãe que te ama e que te carregou nove meses na barriga, é dela que você tem medo?
E nova surra...

E a cada dia o menino lindo e possuidor de uma confiança inabalável foi se fechando mais e mais; já não sabia o que era o certo e o errado, se diria verdades ou mentiras, se apanharia por nada ou conseguiria passar despercebido pela mãe naquele dia.

E ele cresceu e quando teve o primeiro filho prometeu que nunca faria o que a mãe havia feito.

Dez anos se passaram até a primera explosão: o filho chegava do futebol e deixou as chuterias largadas no meio da sala, apressado para ligar o computador e contar aos amigos que havia feito um gol.
Não conseguiu entrar na sua página de relacionamentos, pois antes que o computador ligasse o pai já estava
sobre ele, feroz e amedrontador... tão grande! Como poderia se defender?

Quando ele cresceu, jurou que não faria o mesmo com o filho...
Passaram sete anos até a primeira explosão.
Mas neste dia o circulo vicioso da violencia intrafamiliar foi rompido: uma nova Lei havia sido aprovada e, 
graças a Internet e outros meios de comunicação que facilitavam o acesso a informação, o menino conhecia seus direitos fundamentais como criança.
Pesquisou naInternet um artigo sobre a nova Lei e deu para o pai ler.
- Se me bater de novo, ligo pra polícia.

Os vizinhos e familiares ficaram todos indignados quando souberam do disparate do menino, acusando o governo de se meter em assuntos que não lhe diziam respeito, que agora criariam marginais em suas próprias casas. Onde já se viu criar um filho sem bater? Que educação dariam aos seus quando lhe eram retirados os direitos de poder dispor de suas crianças como bem entendessem?

No íntimo, o pai agradeceu a inteligência do filho. No íntimo, a avó agradeceu a esperteza do neto. Eles haviam passado todos por uma história de violência no seio da família, mesmo tendo prometido nunca repetirem seus pais, acabaram cedendo ao impulso primário da facilidade que só uma violência contra a criança é capaz para "resolver" problemas.
Queriam muito ter feito diferente, mas sabiam que após primeira pancada era muito dificil parar...


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Escrevo diante da minha revolta pela revolta que a nova Lei que complementa o ECA vem causando em pessoas de todos os níveis culturais e econômicos.

Termino a postagem de hoje com uma frase de meu pai, que cursou até a 4ª série do Ensino Fundamental:

"Se você não tem capacidade de educar um filho na base do diálogo, não é com pancada que vai conseguir.
Ele não vai respeitar você, mas o chinelo."


lfg, 08/08/2010.

Um comentário:

  1. lindo o que está escrito, temos que meditar a cada dia o que é melhor para nossos filhos... rever nossos conseitos,enfim dar o nosso melhor, porque depoes que temos não conseguimos mais imaginar nossas vidas sem eles... um amor incondicional assim podemos chegar pelomenos perto do que é ter um filho...linda a sua idéia li, parabens, ficou lindo, emocionante...

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Escrevo para mim e para você.
Compartilhando pensamentos e sentimentos,
crescemos juntos!